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CICLO
In Memoriam Marceline Loridan


Marceline Loridan (1928-2018) entrou no cinema aos 32 anos, no verão de 1960, no filme mutante de Rouch e Morin CHRONIQUE D’UN ÉTÉ, onde, com um microfone na mão, se ligou de origem à revolução do cinema-direto, e onde deixou, num célebre monólogo filmado em plano-sequência, o seu primeiro testemunho da ferida aberta do seu passado – a memória da deportação, com o pai, em 1944, quando tinha 16 anos, para o campo de concentração de Birkenau (prolongamento de Auschwitz). Rezam as crónicas que muito do que se seguiu veio daí, na sequência da curiosidade que despertou no grande autor do “documentário comprometido” Joris Ivens, com o qual, muito poucos anos volvidos (e até à morte dele, em 1989) passou a partilhar vida e obra. Em rigor, não foi com Ivens que começou a (co)realizar filmes, sendo o seu primeiro trabalho nesta área ALGÉRIE, ANNÉE ZERO (1962), feito com Jean-Pierre Sergent (outro dos jovens da CHRONIQUE) no rasto do envolvimento de ambos com a luta de libertação argelina e a FLN. Mas há que sublinhar desde logo a efetiva relevância da sua colaboração com Ivens, que de modo nenhum se pode entender como acessória ou decorrente da simples opção por uma vida em comum. Na verdade, por muito que os filmes que assinaram juntos tenham representado uma maturação última da longa carreira de Ivens iniciada nas vanguardas da década de vinte, é também evidente que, em meados da década de sessenta, quando preparavam o que veio a ser o fabuloso LE DIX-SEPTIÈME PARALÈLLE, o cinema dele estava numa encruzilhada, afrontado pelo novo desafio do som síncrono (a linguagem do “direto”), que não era a sua matriz e cuja incorporação não podia deixar de mexer com as suas raízes mais fundas. Que a conversão a esta linguagem tenha resultado da forma como resultou, que o som direto tenha assim entrado de modo tão forte (e tão naturalmente digerido) como veio a acontecer, eis então algo que deve muito ao trabalho de Loridan, que, ao invés, tinha nascido como cineasta no próprio momento da invenção da nova linguagem. Brincando com o casamento na vida, chamaram-lhe, na altura, o “casamento da imagem e do som”, e é de facto impensável não reconhecer o quanto este Ivens final (acima de tudo, LE DIX-SEPTIÈME PARALÈLLE, a série COMMENT YUKONG DÉPLAÇA LES MONTAGNES e UNE HISTOIRE DE VENT) é não só uma definição última do seu percurso como uma reformulação (mesmo se coerentíssima) dele. E se o derradeiro destes títulos era já toda uma conjugação de olhares – de Ivens sobre as contradições do mundo que viveu, de Ivens sobre si próprio e de Marceline sobre Joris Ivens –, depois disso, ela logrou o gesto necessário do confronto consigo própria que, fechada a etapa Ivens, ocupou, de forma imensamente livre mas também imensamente dilacerada, o resto da sua vida. O filme que realizou “sobre Auschwitz” – LA PETITE PRAIRIE AUX BOULEAUX – não se parece, nem nunca poderia parecer-se com qualquer obra feita por quem não tivesse tido aquela exata experiência: mais do que um filme sobre o “horror” (como representá-lo, depois de vivido?) é a vontade de pisar o terreno olhando para um futuro que, por outro lado, se sabe totalmente vedado – uma viagem interior de ajuste, tão libertadora quanto, no fundo, surda e expectavelmente frustrada. Aí como nos três livros de memórias que veio a publicar – Ma vie balagan (2008), Et tu n’est pas revenu (2015) e L’amour après (2018) – Marceline Loridan falou, dir-se-ia, dessa única questão: não a impossibilidade da vida no “campo”, mas aquela outra, para ela ainda terrivelmente mais dura (no próprio sentido de que, à sua volta, ninguém o queria verdadeiramente escutar) que era a impossibilidade da vida depois dele.
Prestamos-lhe homenagem em cinco sessões, quatro dedicadas ao filme que realizou e aos que correalizou, e uma em que damos a ver, em antestreia, o recentíssimo documentário que Cordelia Dvoràk realizou sobre ela.
 
 
12/02/2019, 18h30 | Sala Luís de Pina
Ciclo In Memoriam Marceline Loridan

Une Histoire de Vent
de Joris Ivens, Marceline Loridan
França, China, 1988 - 78 min
 
14/02/2019, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo In Memoriam Marceline Loridan

Le Dix-Septième Paralèlle
de Joris Ivens, Marceline Loridan
França, Vietname, 1968 - 113 min
16/02/2019, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo In Memoriam Marceline Loridan

Comment Yukong Déplaça les Montagnes
de Joris Ivens, Marceline Loridan
China, França, , 1976 - 98 min
26/02/2019, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo In Memoriam Marceline Loridan

Algérie, Année Zero | La Petite Prairie aux Bouleaux
duração total da projeção: 131 min | M/12
28/02/2019, 18h30 | Sala Luís de Pina
Ciclo In Memoriam Marceline Loridan

Marceline, une Femme, un Siècle
de Cordelia Dvoràk
França, 2018 - 59 min
12/02/2019, 18h30 | Sala Luís de Pina
In Memoriam Marceline Loridan
Une Histoire de Vent
de Joris Ivens, Marceline Loridan
com Joris Ivens, Han Zenxiang, Wang Delong, Liu Zhuang, Wang Hong, Fu Dalin
França, China, 1988 - 78 min
legendado eletronicamente em português | M/12
O último filme de Ivens, realizado em colaboração com Marceline Loridan, tornou-se porventura um dos seus trabalhos mais famosos. Aqui Ivens e Loridan voltam a câmara para si próprios e para as mudanças do mundo que os rodeia. Explorando a sabedoria chinesa e estruturando o filme em torno de uma procura de vento, os cineastas criam um universo poético, pleno de liberdade e de imaginação, que é também uma evocação das origens do cinema e do trabalho de Ivens no período das vanguardas.
 
14/02/2019, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
In Memoriam Marceline Loridan
Le Dix-Septième Paralèlle
de Joris Ivens, Marceline Loridan
França, Vietname, 1968 - 113 min
legendado eletronicamente em português | M/12
LE DIX-SEPTIÈME PARALÈLLE foi a homenagem que Ivens e Loridan prestaram ao povo vietnamita. O documentário foi filmado numa aldeia do Vietname do Norte, próxima do 17º paralelo, ou seja da fronteira com o Vietname do Sul. Ivens e Loridan viveram quatro meses com os habitantes, compartilhando as suas duras condições de vida e testemunhando a devastação dos bombardeamentos americanos. Um dos raros filmes que mostra a guerra na sua realidade diária.
 
16/02/2019, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
In Memoriam Marceline Loridan
Comment Yukong Déplaça les Montagnes
de Joris Ivens, Marceline Loridan
China, França, , 1976 - 98 min
legendado eletronicamente em português | M/12
COMMENT YUKONG DÉPLAÇA LES MONTAGNES é um filme constituído por 12 partes autónomas que versam sobre a vida quotidiana na China após a Revolução Cultural e que vai buscar o seu título a uma antiga narrativa chinesa. Apresentamos dois dos seus episódios: “LA PHARMACIE Nº 3: SHANGHAÏ” (79 minutos) e “HISTOIRE D'UN BALLON, LE LYCÉEN N°31 À PÉKIN” (19 minutos). No primeiro, Ivens e Loridan filmam uma farmácia-piloto que não se limita a distribuir medicamentos, uma vez que todos se esforçam para melhorar o serviço em prol do bem da coletividade. “HISTOIRE D'UN BALLON, LE LYCÉEN N°31 À PÉKIN” centra-se, por sua vez, no debate ideológico entre um professor e um aluno a partir dum incidente no recreio com uma bola.
 
26/02/2019, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
In Memoriam Marceline Loridan
Algérie, Année Zero | La Petite Prairie aux Bouleaux
duração total da projeção: 131 min | M/12
ALGÉRIE, ANNÉE ZERO
de Marceline Loridan, Jean-Pierre Sergent
França, 1962 – 40 min / legendado eletronicamente em português
LA PETITE PRAIRIE AUX BOULEAUX
de Marceline Loridan
com Anouk Aimée, Marilu Marini, Elise Otzenberger, August Diehl, Zbigniew Zamachowski
França, Alemanha, Polónia, 2003 – 91 min / legendado em inglês e eletronicamente em português

A abrir a sessão, o filme que Marceline Loridan e Jean-Pierre Sergent fizeram (na sequência do ativismo de ambos, em Paris, contra a guerra na Argélia) sobre os primeiros momentos da independência desse país. Já em LA PETITE PRAIRIE AUX BOULEAUX, uma longa-metragem de ficção fortemente autobiográfica, Marceline Loridan filma Anouk Aimée como uma sobrevivente do Holocausto. Depois de muitas viagens através do mundo, Myriam, cineasta e grande repórter, resolve regressar ao local onde viveu os piores horrores da sua existência: Auschwitz-Birkenau. Um filme impressionante cujo projeto foi acalentado em silêncio por Loridan durante cerca de 40 anos, o intervalo necessário para o regresso a um tão violento passado. ALGÉRIE, ANNÉE ZERO é uma primeira exibição na Cinemateca.
 
28/02/2019, 18h30 | Sala Luís de Pina
In Memoriam Marceline Loridan
Marceline, une Femme, un Siècle
de Cordelia Dvoràk
França, 2018 - 59 min
legendado eletronicamente em português | M/12
Um documentário produzido pela televisão francesa, pouco tempo antes da morte de Marceline Loridan, que atravessa, pelos vários passos da sua vida (e com testemunhos da própria), toda uma história de um século XX marcado pela guerra, pela discriminação, e pela luta pela liberdade, seja no ativismo contra a guerra da Argélia, nas marcas deixadas pelo Holocausto e Auschwitz, ou o encontro com Joris Ivens, com quem viveria e trabalharia. Um encontro com uma mulher, autora e realizadora marcante para entendermos o passado, a luta pela nossa liberdade, e as questões e lutas políticas que ainda nos apoquentam, hoje, no nosso presente. Primeira exibição na Cinemateca.