CICLO
Double Bill


Em duas duplas distintas, dois filmes do realizador italiano Luciano Emmer (1918-2009), a cuja obra a mais recente edição do festival Il Cinema Ritrovato dedicou uma retrospetiva de reapreciação, encarando-o como um autor moderno que encontrou um espaço próprio, atento à juventude e ao entusiasmo da pequena burguesia emergente do pós-guerra italiano. Tendo-se iniciado em finais dos anos trinta com uma série de filmes documentais de arte a que imprimiu um cunho pessoal, Luciano Emmer foi particularmente fértil na longa-metragem de ficção nos anos cinquenta, década em que o seu trabalho foi recebido depreciativamente como “neorrelismo cor-de-rosa”, toldando a perceção da dimensão poética do seu olhar cinematográfico. LE RAGAZZE DI PIAZZA DI SPAGNA é um dos filmes desse período enquanto LA RAGAZZA IN VETRINA representou o fim de um ciclo na filmografia, decorrente dos problemas que o filme enfrentou por questões de censura (Emmer dedicar-se-ia à televisão nos anos subsequentes). O “filme maldito” de Emmer emparelha neste programa com THE LAST MOVIE de Dennis Hopper, dez anos posterior, e também ele um “caso de maldição” para o seu realizador. O Emmer de 1952 é apresentado com um dos menos vistos filmes de Yasujiro Ozu da mesma década, SOSHUN (1956), prometendo uma sessão duplamente avassaladora. Em todos os casos, são obras que dispõem de materiais recentes, que facilitam a sua circulação.
 
 
22/12/2018, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Double Bill

La Ragazza in Vetrina | The Last Movie
duração total da projeção: 200 min | M/14
 
29/12/2018, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Double Bill

Le Ragazze di Piazza di Spagna | Soshun
duração total da projeção: 243 min | M/12
22/12/2018, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Double Bill
La Ragazza in Vetrina | The Last Movie
duração total da projeção: 200 min | M/14
entre os dois filmes há um intervalo de 20 minutos
LA RAGAZZA IN VETRINA
de Luciano Emmer
com Lino Ventura, Bernard Fresson, Magali Noël, Marina Vlady, Giulio Mancini
Itália, 1961 – 92 min / legendado eletronicamente em português
THE LAST MOVIE
de Dennis Hopper
com Dennis Hopper, Don Gordon, Julie Adams, Sylvia Miles, Peter Fonda, Kris Kristofferson, Dean Stockwell
Estados Unidos, 1971 – 108 min / legendado eletronicamente em português

LA RAGAZZA IN VETRINA foi o filme que interrompeu abruptamente a obra no cinema de Luciano Emmer num momento que devia ter sido de renovação de fôlego – alvo de censura, acabou por resultar no afastamento de Emmer, que então se dedicou a telefilmes e filmes publicitários para televisão. A história evoca as duras condições de trabalho dos emigrantes italianos nas minas belgas e holandesas seguindo as personagens de dois mineiros solitários até Amesterdão, cidade em que estes se encontram com duas raparigas que ganham a vida a partir das montras de rua do “red light district”. O eixo narrativo do filme compõe-se no movimento que vai do plano geral social (que ocupa uma primeira parte sobremaneira dura) ao plano particular das vidas de personagens comuns. “A unidade de tempo e a ideia da viagem envolvendo encontros impossíveis (DOMENICA D’AGOSTO, PARIGI È SEMPRE PARIGI) adota agora um sabor documental e uma profunda amargura” (Emiliano Morreale, referindo o filme no contexto da obra de Emmer). Depois de realizar EASY RIDER, Dennis Hooper lançou-se no projeto (anterior) de THE LAST MOVIE, que quase lhe deu cabo da vida. Invisível durante décadas, também hoje se fala dele como uma das produções mais extravagantes da Hollywood dos anos setenta (financiada pela Universal graças ao êxito de EASY RIDER): filmado no Peru a partir de um guião originalmente escrito por Dennis Hooper e Stewart Stern (argumentista de REBEL WITHOUT A CAUSE), THE LAST MOVIE conta a história de como as filmagens de um western em rodagem no Peru (cujo realizador é interpretado por Samuel Fuller) são interrompidas depois da morte acidental de um dos atores principais, acabando o projeto por ser retomado num ritualista “remake imaginário” por uma equipa local, com o supervisor dos duplos da produção original (a personagem de Hopper, chamada Kansas). A narrativa do filme sobre uma rodagem e a da rodagem e montagem do filme acabaram por cruzar-se no caos, o que permite ver em THE LAST MOVIE “o grande meta-filme da história americana” (Eric Kohn, IndieWire) ou “o retrato perfeito do cinema americano do início dos anos setenta: autodescoberta, reinvenção, alucinação” (Drew Todd). Ambos os filmes são apresentados em cópias digitais, em primeiras exibições na Cinemateca.
 
29/12/2018, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Double Bill
Le Ragazze di Piazza di Spagna | Soshun
duração total da projeção: 243 min | M/12
entre os dois filmes há um intervalo de 20 minutos
LE RAGAZZE DI PIAZZA DI SPAGNA
Raparigas de Roma
de Luciano Emmer
com Lucia Bosè, Cosetta Greco, Liliana Bonfatti, Marcello Mastroianni, Eduardo De Filippo, Ave Ninchi, Giorgio Bassani
Itália, 1952 – 99 min / legendado eletronicamente em português
SOSHUN
Primavera Precoce
de Yasujiro Ozu
com Chikage Awashima, Ryô Ikebe, Keiko Kishi, Chishû Ryû, Teiji Takahashi
Japão, 1956 – 144 min / legendado eletronicamente em português

Ambientado na Itália do pós-guerra e propondo um retrato geracional que capta as tensões da sociedade da época atento à dimensão emocional das suas personagens, RAPARIGAS DE ROMA segue os dramas da entrada na vida adulta de três raparigas de origem humilde que, vivendo na periferia urbana, trabalham junto da praça das célebres escadarias em Roma. A praça de Espanha é o cenário das suas conversas diárias, testemunhadas pela personagem do professor-narrador. Foi a terceira longa-metragem de ficção de Luciano Emmer, sucedendo a DOMENICA D’AGOSTO e PARIGI È SEMPRE PARIGI (1950/51), e na mesma linha que na época lhe mereceu o entusiasmo público e a detração crítica que o encarou pelo lado de um “neorrealismo cor-de-rosa”. Marcello Mastroianni (que Emmer já dirigira nas duas longas anteriores) surge num pequeno papel de motorista de táxi. Nos mesmos anos cinquenta, noutra latitude, Yasujiro Ozu realiza SOSHUN (segundo o título oficial português, “Primavera precoce”; literalmente, “Início de Primavera”), um filme elíptico, de grande depuração narrativa, fruto de uma conceção extremamente demorada nos tempos de Ozu (três anos), e o mais longo filme do realizador japonês. A duração tem um propósito definido: nesta história sobre a vida de um empregado de escritório e sobre as relações dele com o trabalho e com a mulher, Ozu pretendeu retratar “o pathos da vida de um empregado de escritório”, concentrando-se em cenas de rotina quotidiana, e mostrar o que acontece “a uma pessoa que, depois de trabalhar duramente anos e anos, percebe que não conseguiu nada”. RAPARIGAS DE ROMA é uma primeira exibição na Cinemateca. SOSHUN (a apresentar em cópia digital) é, dentre os Ozu dos anos cinquenta, um título relativamente raro.