CICLO
A Enxada é de Toda a Gente - A Propósito de 'Torre Bela'


 “Qual o valor da tua ferramenta?” pergunta, exasperado, um dos membros da cooperativa Torre Bela a um dos camponeses. “Tudo isto é da cooperativa, não é meu, nem teu, nem deste, é de todo o mundo!” O agricultor responde que cada um tem a sua enxada, aquela comprou-a ele e não é de mais ninguém – “Eu é que trabalho com ela! Qualquer dia tudo o que eu compro fica a ser da cooperativa...” “Mas é exatamente essa a nossa finalidade! Que no final todos fiquemos com mais do que tínhamos, que todos fiquem com tudo! Só assim é que isto vai para a frente e ninguém pode travar este processo!”
Para o bem e para o mal, os três minutos da “cena da enxada” em TORRE BELA tornaram-se numa condensação quase burlesca do que foram os anos do Processo Revolucionário Em Curso, com o seu misto de utopia e pragmatismo. Essa cena, cujo diálogo integrou os bordões populares e o imaginário de várias gerações, pertence àquele que é, para todos os efeitos, o filme mais complexo que alguém realizou durante o PREC. Para isso muito contribuiu o olhar exterior de Thomas Harlan, cineasta alemão, que aí se estreava como realizador.
Harlan, filho de Veit Harlan (um dos mais importantes – e infames – realizadores do regime nazi), havia experimentado a poesia e o teatro, como dramaturgo, mas, na década de sessenta, dedicou-se inteiramente à investigação dos crimes perpetrados pelos nazis nos campos de concentração polacos, um trabalho que levaria à condenação de mais de 2 mil criminosos de guerra – a revelação de documentação secreta levaria a uma acusação de traição, na Alemanha, ficando Harlan sem passaporte e impedido de entrar na República Federal Alemã por dez anos. Refugiou-se em Itália onde aderiu à organização de esquerda radical Lotta Continua (onde terá conhecido Pier Paolo Pasolini). Quando, no início dos anos 70, recupera o seu passaporte, viaja um pouco por todo o mundo revolucionário (Chile, Bolívia, Estados Unidos da América), culminando o seu périplo em Portugal, em pleno PREC.
O seu interesse recai na luta dos camponeses da zona da Azambuja. Diante de uma enorme propriedade com vastos hectares de terra inculta, pertença do Duque de Lafões, o realizador (juntamente com os militares do MFA) incita as gentes a ocuparem as terras e a coletivizarem-se – como se ouve, a dada altura, “vocês ocupam e a lei há-de vir”. A 23 de abril de 1975 os camponeses invadem os terrenos e os palacetes e Harlan está lá para os filmar – a entrada dos agricultores na casa senhorial é outra das cenas de antologia do filme. O resultado foi a constituição da Cooperativa Agrícola Popular da Torre Bela que geriu as terras durante três anos, período após o qual estas foram restituídas à família dos duques.
Como afirmaram os próprios camponeses, no 1.º aniversário da ocupação: “Nós, os trabalhadores da Torre Bela, estamos em luta contra o feudalismo, o capitalismo, a burguesia latifundiária e os nossos próprios defeitos.” Thomas Harlan quis retratar todo este processo de múltiplas contradições e ambivalências (produzindo o filme de forma igualmente contraditória e ambivalente) e TORRE BELA é o exemplo acabado daquilo que pode ser um cinema militante verdadeiramente dialético, onde a tese e a antítese convivem e produzem um olhar denso e irresolúvel sobre a realidade. Como escreveu Serge Daney, TORRE BELA é “um documento extraordinário”, acrescentado que se trata de um “dos raros ‘bons filmes militantes’. Foi preciso esperar que as palavras de ordem e os slogans deixassem de tranquilizar para que as imagens, por fim, chegassem.” Mais, “dificilmente teremos visto uma outra coletividade, na sua singularidade, ela própria constituída de singularidades, construir-se e desconstruir-se, envolta num processo político no qual ela é a verdade cega, o ponto de utopia.”
Cinquenta anos depois, a Cinemateca Portuguesa, juntamente com a Cinemateca de Munique, conclui um longo processo de fixação e restauro da versão final definida por Thomas Harlan no seu fim de vida (ao longo dos anos o realizador montou e remontou obsessivamente o filme), que será editada em DVD numa edição conjunta das duas instituições. Assim, entre 20 e 24 de abril, apresentamos um programa concentrado em torno deste filme paradigmático, onde exibiremos a nova cópia digital do filme (assim como uma versão alternativa, mais longa, em 16mm), apresentaremos outros filmes de Thomas Harlan, documentários realizados sobre Harlan e a rodagem do filme em Portugal, assim como outros filmes e reportagens igualmente rodados na herdade da Torre Bela. A juntar a isso, organizam-se três conversas com especialistas na obra e na figura de Thomas Harlan: o seu filho, Chester Harlan, Stefan Drössler, o diretor do Filmmuseum de Munique, o montador do filme Roberto Perpignani, o historiador e realizador José Filipe Costa, o anterior diretor da Cinemateca José Manuel Costa (que entrevistou Harlan e investigou profundamente a genealogia do filme) e o realizador e conservador Manuel Mozos (que realizou os extras da edição de DVD).
 
22/04/2026, 17h30 | Sala Luís de Pina
Ciclo A Enxada é de Toda a Gente - A Propósito de 'Torre Bela'

CONVERSA SOBRE A MONTAGEM DE ‘TORRE BELA’
 
22/04/2026, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo A Enxada é de Toda a Gente - A Propósito de 'Torre Bela'

TORRE BELA (versão de 1978 para distribuição nos EUA)
de Thomas Harlan
República Federal da Alemanha, Portugal, Itália, 1977 - 138 min
23/04/2026, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo A Enxada é de Toda a Gente - A Propósito de 'Torre Bela'

TORRE BELA - TRAILER | VIRIDIANA
23/04/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo A Enxada é de Toda a Gente - A Propósito de 'Torre Bela'

ENTREVISTA A THOMAS HARLAN | LINHA VERMELHA
24/04/2026, 17h30 | Sala Luís de Pina
Ciclo A Enxada é de Toda a Gente - A Propósito de 'Torre Bela'

CONVERSA SOBRE A PRODUÇÃO DE ‘TORRE BELA’
22/04/2026, 17h30 | Sala Luís de Pina
A Enxada é de Toda a Gente - A Propósito de 'Torre Bela'
CONVERSA SOBRE A MONTAGEM DE ‘TORRE BELA’
com Roberto Perpignani e José Manuel Costa
A decorrer em português e italiano, sem tradução
Duração: 1h30
22/04/2026, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
A Enxada é de Toda a Gente - A Propósito de 'Torre Bela'
TORRE BELA (versão de 1978 para distribuição nos EUA)
de Thomas Harlan
República Federal da Alemanha, Portugal, Itália, 1977 - 138 min
M/12
Thomas Harlan foi um dos muitos estrangeiros que vieram filmar a revolução em Portugal. De 1977, o seu TORRE BELA é um dos mais míticos títulos do cinema militante do período revolucionário. Quando se concluíram os trabalhos de restauro e digitalização deste filme (que culminam na sua edição em DVD, feita em conjunto entre a Cinemateca Portuguesa e a Cinemateca de Munique), é possível agora perceber (ou delinear) a complexa genealogia de um filme que tem mais de uma dezena de versões. Há cerca de uma década os materiais de origem foram depositados no nosso país e, a partir do seu estudo, foi possível identificar os negativos (em 16mm) correspondentes à versão que Harlan preparou para a difusão nos EUA em 1978, com duração de 136 minutos (24 minutos mais longa). Embora não seja a versão que o realizador procurou fixar nos últimos anos de vida, é bastante reveladora da história das mutações do filme, mas também do material que foi retirado da montagem final. A exibir em cópia de 16mm.Thomas Harlan foi um dos muitos estrangeiros que vieram filmar a revolução em Portugal. De 1977, o seu TORRE BELA é um dos mais míticos títulos do cinema militante do período revolucionário. Quando se concluíram os trabalhos de restauro e digitalização deste filme (que culminam na sua edição em DVD, feita em conjunto entre a Cinemateca Portuguesa e a Cinemateca de Munique), é possível agora perceber (ou delinear) a complexa genealogia de um filme que tem mais de uma dezena de versões. Há cerca de uma década os materiais de origem foram depositados no nosso país e, a partir do seu estudo, foi possível identificar os negativos (em 16mm) correspondentes à versão que Harlan preparou para a difusão nos EUA em 1978, com duração de 136 minutos (24 minutos mais longa). Embora não seja a versão que o realizador procurou fixar nos últimos anos de vida, é bastante reveladora da história das mutações do filme, mas também do material que foi retirado da montagem final. A exibir em cópia de 16mm.

consulte a FOLHA da CINEMATECA aqui
23/04/2026, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
A Enxada é de Toda a Gente - A Propósito de 'Torre Bela'
TORRE BELA - TRAILER | VIRIDIANA
TORRE BELA - TRAILER
de Thomas Harlan
República Federal da Alemanha, Portugal, Itália, 1979 – 7 min
VIRIDIANA
Viridiana
de Luis Buñuel
com Sílvia Pinal, Fernando Rey, Francisco Rabal
Espanha, México, 1961 – 90 min
Duração total da projeção: 97 min / legendas em português | M/12

Buñuel estava há mais de vinte anos radicado no México, quando foi, com alguma pompa, convidado para voltar a filmar em Espanha. Quem se lembrou da brilhante ideia (Gustavo Alatriste) depressa se arrependeu. Buñuel foi ao mais fundo e mais provocatório do seu anticlericalismo e fez de VIRIDIANA uma ferocíssima sátira ao catolicismo e à sua presença na sociedade espanhola (acabando condenado pelo Papa João XXIII por blasfêmia e indecência). Para grande embaraço do governo, o filme ganhou a Palma de Ouro em Cannes. O Diretor Geral da Cinematografia foi posto na rua e Franco tentou proibir que a obra fosse estreada na Europa (em Espanha e Portugal foi, naturalmente, proibida). Em diálogo com TORRE BELA o filme antecipa, alegoricamente, as questões da luta de classes, da propriedade, da ocupação e da coletivização. A abrir a sessão, apresenta-se (pela primeira vez) um longo trailer produzido para a distribuição de TORRE BELA.

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23/04/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
A Enxada é de Toda a Gente - A Propósito de 'Torre Bela'
ENTREVISTA A THOMAS HARLAN | LINHA VERMELHA
Sessão com apresentação por José Filipe Costa
ENTREVISTA A THOMAS HARLAN
de Sérgio Tréfaut
Portugal, 1998-2026 – 17 min / legendado eletronicamente em português
LINHA VERMELHA
de José Filipe Costa
Portugal, 2012 – 90 min
Duração total da projeção: 107 min | M/12

Na sua primeira longa-metragem, OUTRO PAÍS, Sérgio Tréfaut entrevistou uma série de realizadores e fotógrafos que participaram e registaram o 25 de Abril e os anos do PREC. Entre eles estava Thomas Harlan. Propositadamente para esta sessão, o realizador regressou aos brutos desse filme, autonomizando essa entrevista, como já o havia feito com Robert Kramer. A sessão prossegue com LINHA VERMELHA, o documentário que José Filipe Costa dedicou à forma como Harlan fixou e dramatizou a ocupação da herdade da Torre Bela. O realizador revisita esse momento emblemático do período revolucionário português e questiona-se: de que maneira Harlan interveio nos acontecimentos? Qual foi o impacto do filme na vida dos ocupantes e nas memórias desse período? LINHA VERMELHA resulta de um estudo de caso feito no âmbito da investigação de doutoramento de José Filipe Costa sobre o cinema português e o PREC.

consulte a FOLHA de ENTREVISTA A THOMAS HARLAN aqui

consulte a FOLHA de LINHA VERMELHA aqui



 
24/04/2026, 17h30 | Sala Luís de Pina
A Enxada é de Toda a Gente - A Propósito de 'Torre Bela'
CONVERSA SOBRE A PRODUÇÃO DE ‘TORRE BELA’
com José Filipe Costa e Manuel Mozos
Duração: 1h30