CICLO
Claudia Cardinale !


Em colaboração com a Festa do Cinema Italiano
Claudia Cardinale foi uma das maiores vedetas do cinema europeu, mas sobretudo uma das últimas grandes estrelas do tempo em que o cinema europeu, particularmente o cinema italiano mas não apenas esse, era “capaz de tocar toda a gente ao mesmo tempo”, para citar uma ideia de Jorge Silva Melo. E, de facto, de Luchino Visconti a Federico Fellini, de Valerio Zurlini a Luigi Comencini, consultar a lista de realizadores com quem Cardinale trabalhou é encontrar um mundo onde não havia grande distinção entre o espetáculo “popular” e o espetáculo “autoral”. Dizendo de outra maneira, seria possível contar a história do cinema europeu a partir da filmografia de Claudia Cardinale, dos anos 1950 ao século XXI – porque ela trabalhou praticamente até ao fim da vida (o seu último em crédito em filmes data de 2022), e gabava-se disso, sem deixar de reconhecer o privilégio que era, para uma atriz octogenária, continuar a receber propostas de trabalho.
Nascida em 1938 na Tunísia, filha de imigrantes sicilianos, Cardinale chegou ao cinema de maneira fortuita, propulsionada pela sua beleza física. Com 17 anos ganhou um concurso de “Italiana mais Bonita da Tunísia”, cujo prémio era uma viagem ao Festival de Veneza. Deu nas vistas de várias produtores, recebeu um convite para estudar representação em Roma, um curso que chegou a frequentar mas de que desistiu, preferindo voltar à Tunísia quando as portas do cinema pareciam abrir-se-lhe – uma renitência face ao mundo do cinema, face ao estrelato, que no fundo nunca a abandonou, e que enquadrou sempre muitas das suas escolhas e das suas decisões. Por exemplo, quando voltou costas a uma carreira no cinema americano, em que parecia bem lançada, por não gostar da maneira como se sentia tratada nem ter vontade de se mudar para Hollywood (onde nunca estabeleceu residência, apesar dos vários filmes que aí fez). Também nunca lidou bem com o seu estatuto de “sex symbol” – em que chegou a ser considerada como a grande rival de Brigitte Bardot – e outra coisa de que se gabava era de nunca se ter deixado filmar despida.
Começou por pequenos papéis, no final dos anos 50, o mais famoso dos quais nos SOLITI IGNOTI de Mario Monicelli, e nesses filmes iniciais a sua voz era dobrada, porque Cardinale não falava bem o italiano continental, só o dialeto siciliano dos seus pais e o francês e o árabe da sua educação tunisina, e porque os produtores tinham algum receio da sua voz rouca, que também era o resultado dos dois maços de cigarros que fumava diariamente – é um pouco surpreendente descobrir que só se ouviu a verdadeira voz de Cardinale a partir de 1963 e de OTTO E MEZZO, tendo sido Fellini a quebrar o “tabu”, um tabu que a atriz nunca levou a mal, e na sua timidez até encorajou, por considerar que tinha “uma voz esquisita”. Independentemente disso, o filme mais marcante dos iniciais de Cardinale, aquele que a projetou decisivamente para o firmamento das estrelas do cinema europeu, foi a RAGAZZA CON LA VALIGIA de Valerio Zurlini, em 1961. Cardinale sempre reconheceu quão decisivo fora o encontro com Zurlini, não só pelo sucesso do filme, mas porque o realizador a “compreendeu imediatamente”, e lhe “ensinou tudo sem lhe exigir nada”.
A partir daí estava desimpedido o caminho para o passeio de Cardinale pelos maiores filmes dos anos 60, dos grandes mestres (Fellini, Visconti) aos pequenos mestres (Pietrangeli, Maselli), com a sereia do cinema americano a chamá-la rapidamente – logo em 1964 foi escolhida por Blake Edwards para THE PINK PANTHER, e embora tenha feito vários filmes em contexto hollywoodiano essa ficou como a melhor recordação, e Edwards o realizador americano com quem mais gostou de trabalhar (tanto assim que voltou em pequenas participações nas futuras sequelas de PINK PANTHER que Edwards dirigiu). Nos anos 70, acompanhando também as próprias transformações do cinema europeu, foi sendo progressivamente atraída para projetos de “autor”, mais ou menos “experimentais”, sem receita prescrita, e até algo radicais – é assim que a vamos encontrar no cinema de Werner Herzog (a loucura de FITZCARRALDO) ou no de Marco Bellocchio (ENRICO IV), sem esquecer o desejo, proferido ao longo de anos, de um dia trabalhar com Manoel de Oliveira, que se veio a concretizar in extremis, na última longa-metragem (GEBO E A SOMBRA) do realizador português.
Este é, então, o trajeto que propomos, uma viagem por dezasseis dos mais memoráveis momentos da obra desta atriz incomparável, capaz de ser sempre um pouco de tudo, por vezes muito cómica, outras muito trágica, frequentemente as duas coisas ao mesmo tempo, e uma atriz que “marcou” os filmes, que os tornou impensáveis se, porventura, outra atriz tivesse sido escolhida para os papeis que lhe couberam. Razões para exclamar: Claudia Cardinale!
A abertura da retrospetiva conta com a presença de Claudia Squitieri, Presidente da Fundação Claudia Cardinale e filha da atriz e do realizador Pasquale Squitieri (de quem será exibido CORLEONE, protagonizado por Cardinale).
 
10/04/2026, 19h30 | Sala Luís de Pina
Ciclo Claudia Cardinale !

ENRICO IV
de Marco Bellocchio
Itália, 1984 - 95 min
 
11/04/2026, 19h30 | Sala Luís de Pina
Ciclo Claudia Cardinale !

CORLEONE
O Último Padrinho
de Pasquale Squitieri
Itália, 1978 - 120 min
13/04/2026, 16h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Claudia Cardinale !

LIBERA, AMORE MIO…
Livre, Meu Amor
de Mauro Bolognini
Itália, 1975 - 110 min
13/04/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Claudia Cardinale !

GLI INDIFFERENTI
Os Indiferentes
de Francesco Maselli
Itália, 1964 - 90 min
14/04/2026, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Claudia Cardinale !

ENRICO IV
de Marco Bellocchio
Itália, 1984 - 95 min
10/04/2026, 19h30 | Sala Luís de Pina
Claudia Cardinale !
ENRICO IV
de Marco Bellocchio
com Marcello Mastroianni, Claudia Cardinale, Leopoldo Trieste
Itália, 1984 - 95 min
legendado eletronicamente em português | M/12
Um filme singular de Marco Bellocchio, que adapta uma peça de Luigi Pirandello sobre um homem que julga ser Henrique IV, imperador do Sacro Império Romano-Germânico. Intervém a psiquiatria (desde sempre um interesse de Bellocchio), com um estratagema para arrancar o homem (que é Mastroianni) aos seus delírios de grandeza medieval. É também um filme a trabalhar as formas do teatro, incluindo o teatral musical, com uma banda sonora original composta por Astor Piazzolla. Primeira exibição na Cinemateca, a apresentar em cópia digital.

A sessão repete no dia 14 às 15h30, na sala M. Félix Ribeiro.

consulte a FOLHA da CINEMATECA aqui
 
11/04/2026, 19h30 | Sala Luís de Pina
Claudia Cardinale !
CORLEONE
O Último Padrinho
de Pasquale Squitieri
com Giuliano Gemma, Claudia Cardinale, Francisco Rabal
Itália, 1978 - 120 min
legendado eletronicamente em português | M/12
A máfia, mais uma vez: CORLEONE centra-se na figura de Luciano Liggio, chefe do gang dos Corleonesi,  uma das mais poderosas “famílias” da máfia siciliana. Pela capacidade de fugir das autoridades, e de se furtar a condenações judiciais, Liggio foi durante algum tempo o mafioso mais célebre e mais temido de Itália, até que em 1974 o Estado italiano conseguiu finalmente condená-lo a uma pena de prisão perpétua. O livro que o filme adapta, uma biografia jornalística, foi publicado nessa altura. Um pouco por tudo isto, CORLEONE foi extremamente bem sucedido nas bilheteiras italianas. Primeira apresentação na Cinemateca, a exibir em cópia 35mm.

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13/04/2026, 16h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Claudia Cardinale !
LIBERA, AMORE MIO…
Livre, Meu Amor
de Mauro Bolognini
com Claudia Cardinale, Bruno Cirino, Adolfo Celi
Itália, 1975 - 110 min
legendado eletronicamente em português | M/12
Libera (“livre”) é o nome da personagem de Claudia Cardinale, uma filha de anarquista que mais anarquista é ainda. Ao longo das primeiras décadas do século XX (é como o “1900” de Bolognini), Libera vive em aguerrida confrontação com todos os poderes (da Igreja ao regime fascista), junta-se à Resistência durante a II Guerra, mas também aí a sua rejeição do comunismo lhe traz mais confrontos. Através da personagem de Cardinale, Mauro Bolognini faz uma espécie de auto-retrato enquanto espírito “libero”. Primeira apresentação na Cinemateca, a exibir em cópia digital.

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13/04/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Claudia Cardinale !
GLI INDIFFERENTI
Os Indiferentes
de Francesco Maselli
com Claudia Cardinale, Rod Steiger, Shelley Winters, Paulette Goddard
Itália, 1964 - 90 min
legendado em francês e eletronicamente em português | M/12
Claudia Cardinale num elenco cheio de “importações” de Hollywood (Steiger, Winters, Paulette Goddard), para uma adaptação do célebre romance de juventude de Alberto Moravia sobre a mentalidade da classe média italiana nos anos do fascismo (o livro foi publicado em 1929). Não foi um filme muito bem acolhido na época de estreia, mas o mesmo se passou com muitos outros filmes de Francesco Maselli – que, no entanto, envelheceram muito bem. Um objecto a redescobrir e a reavaliar. A exibir em cópia 35mm.

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14/04/2026, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Claudia Cardinale !
ENRICO IV
de Marco Bellocchio
com Marcello Mastroianni, Claudia Cardinale, Leopoldo Trieste
Itália, 1984 - 95 min
legendado eletronicamente em português | M/12
Um filme singular de Marco Bellocchio, que adapta uma peça de Luigi Pirandello sobre um homem que julga ser Henrique IV, imperador do Sacro Império Romano-Germânico. Intervém a psiquiatria (desde sempre um interesse de Bellocchio), com um estratagema para arrancar o homem (que é Mastroianni) aos seus delírios de grandeza medieval. É também um filme a trabalhar as formas do teatro, incluindo o teatral musical, com uma banda sonora original composta por Astor Piazzolla. Primeira exibição na Cinemateca, a apresentar em cópia digital.

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