CICLO
Nos 90 Anos de Fernando Lopes e Paulo Rocha


F ernando Lopes e Paulo Rocha são dois realizadores que podem ser colocados lado a lado de diversas formas. Ambos são cineastas que desbravaram o terreno do Cinema Novo Português, tendo ambos estreado filmes fundadores com um ano de distância, OS VERDES ANOS em 1963, BELARMINO em 1964. Estes filmes foram, aliás, apelidados de “uma espécie de gémeos diferentes” por Lopes, selando os seus destinos enquanto realizadores que se podem ponderar em conjunto. Ambos nasceram no mesmo mês do mesmo ano, em dezembro de 1935. E ambos faleceram no mesmo ano, em 2012. Enquanto realizadores, quiseram ambos romper com a maneira tradicional de fazer cinema ligada ao Estado Novo e, influenciados pela Nouvelle Vague francesa e pelo cinema europeu do pós-Segunda Guerra Mundial (como a corrente do neorrealismo italiano), propuseram-se explorar novas formas de retratar a realidade portuguesa – isso incluiu espelhar conflitos sociais, transformações urbanas (a centralidade de Lisboa com a sua “inesgotável fonte de narrativas”, como escreveu Luís Miguel Oliveira, é palpável) e desigualdades, bem como as tensões inerentes a estes temas. A maneira de romper com a produção tradicional foi no sentido de ousar rodar na rua, utilizar atores não profissionais (mesclando-os com atores profissionais), fazer uso da improvisação e também de uma maior liberdade criativa. Mas nem só de semelhanças se faz este momento de homenagem. Fernando Lopes atravessou o cinema português como um pêndulo entre dois pólos: o documental e o da ficção – povoado pela recorrência de adaptações literárias: UMA ABELHA NA CHUVA, CRÓNICA DOS BONS MALANDROS ou O FIO DO HORIZONTE, este último programado neste pequeno ciclo. A obra de Paulo Rocha questionou a “portugalidade” e como esta abarca a ruralidade e cosmopolitismo ou a modernidade e a tradição, não deixando de abrir os seus horizontes até ao Extremo Oriente, com uma ligação ao Japão que se refletiu na inspiração de vários filmes. As suas filmografias deram origem a dois momentos de revistação do seu cinema na Cinemateca Portuguesa. Em 1996, promoveram-se duas retrospetivas que coincidiram com o ano do centenário do cinema português – momentos que deram corpo aos catálogos Fernando Lopes por Cá e Paulo Rocha: O Rio do Ouro. Em 2014, fomentou-se o encontro entre os universos dos dois realizadores com os ciclos “Paulo Rocha e Fernando Lopes – Uma Espécie de Gémeos Diferentes” e o diálogo entre os seus filmes. Este mês, “Nos 90 Anos de Fernando Lopes e Paulo Rocha”, a Cinemateca Portuguesa volta a criar um diálogo entre os dois neste duplo aniversário e exibe um filme de cada realizador, respetivamente, O FIO DO HORIZONTE, que inclui a participação de Paulo Rocha no elenco, e SE EU FOSSE LADRÃO… ROUBAVA, o “opus final da grande obra” deste realizador, como escreveu José Manuel Costa. Uma homenagem a uma vida cinematográfica vivida a par e passo por dois cineastas seminais do cinema português contemporâneo. 
 
17/12/2025, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Nos 90 Anos de Fernando Lopes e Paulo Rocha

Se Eu Fosse Ladrão ...Roubava
de Paulo Rocha
Portugal, 2012 - 100 min
 
26/12/2025, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Nos 90 Anos de Fernando Lopes e Paulo Rocha

O Fio do Horizonte
de Fernando Lopes
Portugal, França, 1993 - 91 min
17/12/2025, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Nos 90 Anos de Fernando Lopes e Paulo Rocha
Se Eu Fosse Ladrão ...Roubava
de Paulo Rocha
com Isabel Ruth, Luis Miguel Cintra, Márcia Breia, Chandra Malatitch, Raquel Dias, Carla Chambel, Joana Bárcia, Miguel Moreira, Norberto Barroca
Portugal, 2012 - 100 min
M/12
com a presença de Isabel Ruth, José Manuel Costa e João Pedro Bénard
Partindo da memória familiar e da matéria dos seus filmes, Paulo Rocha revisita as suas origens e as referências maiores da sua vida e obra, numa construção complexa, que é conscientemente testamental embora só indiretamente autobiográfica. O motor inicial do filme é a evocação da infância e juventude do pai do autor, em particular o sonho obsessivo deste, na altura partilhado por muitos, de emigrar para o Brasil, para onde partiu efetivamente em 1909. Mas este tema familiar cruza-se desde o início com o grande mundo da obra de Rocha, num puzzle de raccords temáticos que se dirige para dentro e para trás (a busca do centro ou da origem…) tanto quanto para fora (a constante ampliação de sentido, a identidade de um país). Paulo Rocha fala portanto da sua própria necessidade de partir, e da interrogação de Portugal através da distância, assim como fala da morte, mas também da doença e de um medo tornados endémicos, corrosivos de um país.

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26/12/2025, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Nos 90 Anos de Fernando Lopes e Paulo Rocha
O Fio do Horizonte
de Fernando Lopes
com Claude Brasseur, Andrea Ferreol, Ana Padrão
Portugal, França, 1993 - 91 min
Legendado eletronicamente em português | M/12
sessão com a presença da família de Fernando Lopes | apresentação: Rui Machado, João Pedro Ruivo, Pedro Borges
Nesta adaptação do romance de Antonio Tabucchi, Fernando Lopes revela-nos uma Lisboa escura e melancólica, à margem dos clichés e inspirada em Cesário Verde. Entre o thriller e o fantástico, O FIO DO HORIZONTE mostra-nos um homem confrontado com a imagem da sua própria morte. “Encontramos uma Lisboa (…) ambiguamente realista. ‘Realista’, porque todos estes lugares são reconhecíveis (…) mas ambígua porque esta Lisboa, raramente ou nunca filmada ‘em plano geral’, surge cerrada, misteriosa, (…) Uma Lisboa, enfim, filmada como inesgotável fonte de narrativas” (Luís Miguel Oliveira).

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