A primeira grande retrospetiva de 2026 na Cinemateca é dedicada a Maya Deren, uma das pioneiras do cinema de vanguarda norte-americano, herdeira do surrealismo e das vanguardas europeias dos anos 1920 e 30. Responsável por uma curta, mas relevantíssima obra na História do cinema, Deren cruzou diferentes artes e disciplinas, com especial foco na dança, poesia e antropologia, tendo influenciado inúmeras gerações de cineastas.
Os principais elementos do seu trabalho futuro (um ambiente onírico, movimentos corporais expressivos e a presença da figura do duplo) começam a surgir logo na obra de estreia: MESHES OF THE AFTERNOON (1943), corealizada com Alexander Hammid, o seu companheiro na altura e com quem colaborou em vários outros filmes, que conheceu enquanto trabalhava como assistente da coreógrafa, bailarina e antropóloga Katherine Dunham.
O encontro com Dunham foi fundamental para Deren aprofundar o seu conhecimento do universo afro-caribenho, território que percorreu mais tarde em várias viagens ao Haiti entre 1947 e 1954, financiadas por uma bolsa Guggenheim (na altura a primeira a ser atribuída a uma cineasta). Aí registou imagens dos rituais e danças locais, com especial enfoque na cultura vudu, que iriam dar origem ao inacabado DIVINE HORSEMEN: THE LIVING GODS OF HAITI, apenas terminado vinte anos após a sua morte pelo terceiro marido Teiji Ito, que com ela viajou para o Haiti e foi o autor da música de vários dos seus trabalhos, e por Cheryl Winett Ito.
A par do seu trabalho na realização, no final da década de 1950 Deren teve também um papel importante no apoio de cineastas independentes através da Creative Film Foundation que criou, influenciando assim a obra de outros realizadores.
Ao longo de seis sessões/programas, todas com duas passagens, será apresentada a integralidade da sua filmografia apresentada em diálogo com filmes assinados por quem a influenciou (Man Ray, Léger, Duchamp, mas também Gregory Bateson, Margaret Mead, Katherine Dunham) e com títulos de realizadores influenciados por Deren (como Stan Brakhage ou Shirley Clarke, entre outros). Na sessão das 18h30 do dia 8, haverá uma conversa sobre a obra da cineasta que contará com a participação da programadora do Ciclo, Joana Ascensão, e as investigadoras Mariana Bicudo Cunha, Sílvia Pinto Coelho e Ana Rito, que têm investigado vários aspetos do trabalho cinematográfico de Deren, nomeadamente as relações com a literatura, a dança, as artes plásticas e a antropologia.
O Ciclo “Maya Deren: No cinema posso fazer o mundo dançar” arranca no dia 2 de janeiro às 19h numa sessão que reúne quatro filmes da realizadora: MESHES OF THE AFTERNOON, AT LAND, A STUDY IN CHOREOGRAPHY FOR CAMERA e THE PRIVATE LIFE OF A CAT.
O programa completo pode ser consultado
aqui.