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Assunto: In memoriam
Data: 30/01/2026
João Canijo (1957-2026)
João Canijo (1957-2026)
Realizador marcante das últimas décadas do cinema português, João Canijo faleceu ontem, repentinamente, numa altura em que estava prestes a concluir o seu mais recente trabalho.
 
Autor de uma obra onde pontuam grandes figuras femininas, retratos crus e realistas de personagens colocadas perante grandes adversidades da realidade à sua volta, tinha como imagem de marca um grande rigor formal e uma forma muito própria de trabalhar com os atores, que com ele acabaram por ser também os autores dos seus filmes, sobretudo nos títulos da sua filmografia. TRABALHO DE ACTRIZ, TRABALHO DE ACTOR, um dos vários documentários que também assinou a par com as mais conhecidas ficções, é precisamente um retrato desse método de trabalhar.
 
Ao longo da sua carreira viu os seus filmes serem apresentados e premiados nos principais festivais de cinema portugueses e mundiais. A mais recente grande consagração surgiu com o recente díptico MAL VIVER e VIVER MAL, o primeiro dos quais tendo conquistado o Urso de Prata no Festival de Berlim de 2023, correspondente ao prémio do Júri. Uma vez mais, reunindo uma trupe de atores que formaram uma grande família do cinema português, que quase podíamos equiparar às criadas por realizadores como Manoel de Oliveira, com quem Canijo chegou a trabalhar como assistente de realização. Além da colaboração com o grande mestre do cinema português, o seu nome aparece creditado nas mesmas funções em filmes de cineastas como Wim Wenders, Alain Tanner e Werner Schroeter, colaborações que de certa forma foram fundamentais para moldar o futuro realizador.
À data da sua morte, deixa dois filmes rodados, atualmente em pós-produção: ENCENAÇÃO, sobre a relação de um encenador de teatro com as atrizes da peça que está a encenar (onde podemos prever um provável espelho autobiográfico do trabalho de realizador de Canijo e a sua relação com os intérpretes dos seus filmes), e AS UCRANIANAS, uma obra autónoma saída desse filme criada como um espetáculo de teatro filmado.

A última vez que esteve publicamente na Cinemateca foi em 2023 para apresentar a sua versão da montagem de NOITE ESCURA, que julgava perdida até descobrir uma cópia no ANIM, ocasião memorável que contou com a presença de várias das atrizes e atores com quem partilhou a sua longa e marcante carreira. Teve também um papel de relevo na validação das novas cópias dos seus filmes digitalizadas recentemente pela Cinemateca, sendo presença constante nesse processo, para o qual foi fundamental a sua colaboração com os técnicos de arquivo, nesta operação de digitalização do cinema português.