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Assunto: In Memoriam
Data: 18/02/2026
Frederick Wiseman (1930-2026)
Frederick Wiseman (1930-2026)
Ao longo da História do Cinema, poucos são os cineastas que conseguiram criar uma obra que podemos comparar a um continente, se quisermos utilizar uma metáfora além do cinema. Frederick Wiseman, falecido esta semana, foi um desses realizadores que, ao longo das últimas décadas, deixou uma marca fundamental no cinema documental, o território que resolveu percorrer desde 1967, ano da estreia do seu primeiro filme (o polémico TITICUT FOLIES, considerado à época o único filme censurado nos Estados Unidos por razões não relacionadas com obscenidade ou segurança nacional).

Desde então, Wiseman tornou-se o retratista por excelência das grandes instituições norte-americanas, tendo mais tarde passado para o outro lado do Atlântico, filmando nos últimos anos também outras grandes instituições na Europa. Herdeiro do cinema direto que começou a florescer na década de 1960, abandona uma carreira na área do Direito para entrar no cinema ao produzir THE COOL WORLD, de Shirley Clarke em 1963. Atrás das câmaras lança-se com o citado TITICUT FOLIES onde, com uma equipa mínima, composta por praticamente ele próprio na captação do som e um operador de câmara, sem qualquer intervenção direta no que captam, filma a primeira de inúmeras instituições da sua obra: o Massachusetts Correctional Institution Bridgewater, estabelecimento prisional para criminosos com problemas psicológicos.

Filma metros e metros de película que lhe dão o material necessário para a montagem, onde prescinde de qualquer entrevista, comentário off ou música pré-gravada, marcas distintivas do seu cinema. O resultado deste trabalho foi um método muito próprio e rigoroso, quase único no cinema de cariz documental, onde a mínima intervenção do realizador no ato de filmar se alia a um minucioso trabalho na mesa de montagem para mostrar não apenas os espaços/as instituições, mas também as relações de poder subjacentes a esses mesmos espaços.
 
Seguem-se as mais variadas instituições filmadas ao ritmo de quase um filme por ano, entre 1967 e 2023: a escola (HIGH SCHOOL), o sistema judicial (JUVENILE COURT), o hospital (HOSPITAL), a assistência social (WELFARE), o exército (BASIC TRAINING, MANOUVRE e MISSILE), o lazer (MODEL, CENTRAL PARK, RACETRACK e ASPEN, entre outros), a dança (BALLET, LA DANSE e CRAZY HORSE), instituições culturais (NATIONAL GALLERY e EX LIBRIS) até mesmo localidades, como é o caso de BELFAST, MAINE ou MONROVIA, INDIANA.

Ao longo dos anos a Cinemateca sempre prestou atenção ao seu trabalho. Logo em 1980, ano da abertura da primeira sala M. Félix Ribeiro, foram mostrados os seus primeiros filmes (com exceção de TITITUC FOLIES, então ainda praticamente invisível). Seguiu-se nova retrospetiva em 1994 (“Frederick Wiseman: Um Olhar Sobre as Instituições Americanas”), que contou com a sua presença em Lisboa e na qual foi publicado um catálogo que inclui uma extensa entrevista ao realizador.