Béla Tarr havia anunciado o fim da sua carreira de realizador com a estreia de A torinói ló / O Cavalo de Turim (2011) para se dedicar ao ensino – “na minha escola não ensino, liberto”, disse em entrevista ao jornal Público em 2012 – e à produção cinematográfica. O realizador de Kárhozat / Danação (1988) e do monumental Sátántangó / O Tango de Satanás (1993), conhecido pelas suas atmosferas plúmbeas (danadas) e por um olhar algo apocalíptico sobre os destinos da humanidade e, em particular, da sua por vezes malquista Hungria, concluía um capítulo mas abria outro, igualmente decisivo: o do seu legado.
Filmando de tempos a tempos, de maneira intermitente, Tarr deixa-nos uma obra relativamente curta, que não chega às dez longas-metragens, ainda que extraordinariamente influente, marcante para várias gerações de realizadores espalhados pelo mundo, do americano Gus Van Sant (com Gerry [2002] a permanecer como um dos mais “béla tarreanos” dos filmes) ao português André Gil Mata, que estudou na escola de Béla Tarr, a Film Factory (2013-2016), localizada em Sarajevo, onde rodou A Árvore (2018).
Em 1994, no quadro de uma “Semana de Cinema Húngaro”, a Cinemateca revelou Béla Tarr em Portugal. Mostrou-se Sátántangó, a sua obra-prima, com mais de sete horas, e, em 1997, com Béla Tarr como convidado, fez-se uma retrospetiva contextualizada da obra do cineasta (“Cineastas para o Século XXI” e “A Escolha de Béla Tarr”), da qual resultou um livro com coordenação de Luís Miguel Oliveira. Em 2016, Tarr marcou encontro com o público durante um Ciclo precisamente intitulado “Encontro com Béla Tarr”. O generoso diálogo, o mais efetivo com a plateia e o mais virtual com os cineastas da sua eleição (Yasujiro Ozu, Rainer Werner Fassbinder e o compatriota Miklós Jancsó são recorrências nas suas “Cartas Brancas”), é revelador da dedicação de Tarr à defesa e promoção de um cinema livre e inconformado. “Tarr não é um cinéfilo (no sentido exuberante do termo), mas é daqueles cineastas que, a cada enquadramento, permanecem fiéis aos realizadores que o formaram”, notou Luís Miguel Oliveira na Folha de Sala desse “filme do fim” que foi A torinói ló / O Cavalo de Turim, cuja última passagem na Cinemateca se deu em 2022, num Ciclo sobre “O Vento no Cinema – Fazer Ver o Invisível”.
A obra de Tarr, frequentemente revisitada nas nossas salas, tornou-se, com o tempo, passagem obrigatória para se compreender o cinema de autor e perspetivar o seu futuro, apesar de tudo, possível.